Profundidade verde

Caminhava sem muita pressa pela rua. Atravessava uma rua ou outra, sempre a observar cada vitrine, roupas das últimas tendências não eram exatamente o que lhe interessavam. Parava por vezes longos minutos em frente de uma vitrine, lá dentro diversas roupas dependuradas em manequins que imitavam poses humanas monumentais para mostrar definitivamente o bom caimento de cada roupa num corpo ilusório, mais ao fundo as vendedores ávidas por mais uma venda naquele fim de ano sem muito movimento, resultado de crises sobre crises, esperavam ansiosamente por sua entrada, vestia-se bem, portava uma bolsa de marca, usava uns óculos com design aclamado, seria uma venda garantida. Porém, seu olhar não estava direcionado nem para os manequins, nem para as roupas, muito menos para as vendedoras. O seu olhar parava antes, antes de penetrar a mágica insustentável da loja, parava na própria vitrine que se tornava espelho em sua visão. Olhou concentradamente por longos minutos para seus próprios olhos verdes refletidos que se destacam sob certa iluminação daquele dia ensolarado. Sua forma se tornava vaga na vitrine com tanta luz, mas seus olhos não, eram certeiros e exatamente refletidos mostravam exatamente aquilo que estava procurando. Geralmente quando a visão de sua própria imagem numa forma de autoaprovação sorri-se, e ele não. Seu rosto alvo quadrado tornava-se mais sisudo, mais petrificado, parecia um monumento da Ilha de Páscoa, como a esperar pelo grande acontecimento.
Sua atenção somente se desviou a passagem de um homem que o olhava, o olhar do outro o atraia e de uma forma misteriosa, ele sabia que estava sendo observado e sempre retribuia insistentemente a observação. Da mesma forma que olhou-se por minutos diante da vitrine, vislumbrou todo o caminhar daquele homem que seguia em sua direção e certamente passaria por ele seguindo o curso natural do caminhar pelo centro da cidade. Não foi exatamente o que aconteceu. O homem parou ao seu lado e começou a olhar as roupas, as vendedoras vibraram com gritinhos surdos. Ele não voltou a olhar a vitrine continuou insistentemente a olhar para o homem até que o outro se volta para ele, aproxima-se de seu ouvido e diz qualquer palavra convidativa. Ambos sorriam de canto de boca e partiram juntos no caminhar natural das vidas. As vendedoras se dispersaram suspirando.
Naturalmente conversaram sobre tudo, ou seja, sobre coisa alguma. Se olharam e se desejaram nitidamente, corpos pulsantes e colidindo um para o outro. Mentes que se atrem por uma beleza única que só há no outro ser humano, uma beleza que suplementa a sua interminávelmente. Sua casa era um primor da arquitetura contemporânea, suas linhas retas, o concreto, o sábio uso do vidro. O amplo quarto era preenchido somente por uma cama com seus lençóis brancos, sua única desordem, era a desordem do dia: roupas salpicando o chão amadeirado. Os corpos se moviam numa entrega total, suspiravam e cediam ao desejo alheio enquanto seu próprio desejo era preenchido de uma nova forma muitas vezes não experimentada. O desejo só possui um fim, e com o seu fim, os corpos tornam-se novamente humanos, severamente humanos. Olharam-se e sorriram, como se a satisfação de si pudesse estar num único ato. O observador de vitrines não deixou de fazê-lo, observava silenciosamente o outro enquanto contava historietas para depois do sexo, quando questionava dava respostas vagas. A única coisa que lhe interessava era os olhos que misteriosamente eram vislumbrados, agora sem sorriso algum, estava novamente a contemplar sua própria imagem na profundidade azul do outro, sua busca não havia terrminado.
Levantaram para um banho. Num gesto de último carinho permiriam-se ensaboar-se, enxaguar-se e mais uma vez beijaram um ao outro. Não vestiram roupa alguma, seguiram direto para um outro cômodo que possuia um espelho que ocupava toda a parede, parecia a sala de ensaio de um ballet qualquer. O espelho ali serve para observar com detalhes impensáveis o movimento do corpo, é possivel estudar o detalhe de cada músculo, sua curvatura, sua grandiosidade ou flacidez. Ele sentou o outro no chão sobre um leve acolchoado que se olhou envergonhado para o espelho a sua frente. Ele permanecia sério, como a preparar um leve ritual, trouxe dois copos preenchidos com qualquer vapor em homenagem a Baco e entregou sem olhar o copo que tocava uma música glacial desconexa . Tomou um pequeno e tímido gole, suspirou fundo com o álcool rasgando sua garganta enquanto ele se sentava por trás do outro envolvendo-o com suas pernas, os dois agora poderiam se olhar o próprio reflexo. A seriedade pertubava o outro que muitas vezes desviava o olhar do espelho. Levemente o copo foi colocado no chão vitreo da sala, as mãos percorreram lentamente o corpo alheio, sua mão, agora severa, segurou o queixo do outro forçando-o olhar diretamente para o espelho. O silêncio da cena tornava o ritual macabro. Ele analisava cada detalhe do corpo de seu convidado, perscrutava pacientemente cada milímetro da alteridade. Minutos tensos que só se encerraram com sua voz um tanto rouca sentenciando: "Não é você!" De olhos arregalados o outro levantou-se apressadamente chutando sem querer o copo, o líquido naturalmente se espalhou formando uma poça desordenada, o gelo rolou enquanto começava seu processo de liquefação perante o leve calor que se fazia. Os dois se olharam, um de pé com os musculos retesados por tal insulto, o outro levemente deitado apoiando as mãos para trás. Nenhuma palavra foi dita, o outro simplesmente saiu em direção ao quarto para resgatar suas roupas e provavelmente sair o mais depressa possível. Ele permaneceu ali quase deitado, somente observando a si mesmo, seu único movimento foi pegar o gelo mais próximo e passar pelas curvas de seu corpo, aquele toque insano do gelo o fez voltar a infância. Viu a si mesmo nu deitado na cama, sua mãe se aproximou e o pegava no colo. Deveria ter cinco anos ou menos. Ela sempre o levava para a frente do espelho e ambos ficavam observando a si e ao outro, enquanto a mãe dispensava carinhos por sobre o corpo branco do filho, ele nunca sorria na frente do espelho enquanto a mãe gargalhava pelas brincadeiras carinhosas, ele sempre olhava para ela com tal profundidade que sem sombra de dúvida poderia até mesmo estar se observando no reflexo da profundidade verde de sua mãe.

A educação de quem?

FLAUBERT, Gustave. A educação sentimental. São Paulo: W. M. Jackson Inc. Editores, 1963

Frederico Moreau é uma personagem encantadora. Não, ele não é uma personagem. É mais. Morador da província, deseja e vai para Paris, e nessa primeira ida e vinda para esta cidade algo muda em sua existência, cidade esta que sim, verdadeiramente é encantadora, por ser a capital do país? Não. Por ser exclusivamente a capital do desejo: "Porque, na sua opinião, a arte, a ciência e o amor (essas três faces de Deus, como dizia Pellegrin) dependiam exclusivamente da Capital." (p. 95). Nesta viagem que acompanhamos juntamente com a descrição (in)verossímel de Gustave Flaubert percebemos como Fred estava sobredeterminado por um sentimento romântico, um sentimento que o faria amar a esposa de Arnoux: "um homem que mercadeja com torpezas políticas" (p. 54), simplesmente pelo gesto de amar. Toda a sua existência, acreditou ele, estaria concluída quando conhecesse e enamorasse esta mulher que significou a conjunção da perfeição, da beleza e da integridade. As peripécias da existência porém, mostraram o contrário. Ela tornou-se mais real? Não, somente mais humana, severamente mais humana. Da mesma forma que Frederico, que também tornou-se mais e mais humano, mas isso não se processava da mesma forma, ele estava em um processo:
Mas estava resolvido (e a todo custo) a mudar de existência, isto é, não perder o coração em paixões infrutíferas, e até hesitava em desempenhar-se da comissão de que Luísa o havia encarregado: comprar para ela, em casa de Jacques Arnoux, duas grandes estatuetas policromas representando pretos, como os que estavam na prefeitura de Troyes. Conhecia a marca do fabricante e não as queria de outro. Frederico tinha medo, se voltasse a casa deles [dos Arnoux], de tornar a cair nos seus antigos amores." (261, reparem que o grifo é do autor)
A necessidade de não vê-la mais criou em si um desejo de volta à província: "odiando o meio fictício onde tanto tinha sofrido, [Frederico] desejou a frescura do manto, o repouso da província, uma vida sonolenta passada à sombra do teto natal, com corações ingênuos." (427) E foi-se novamente pisar no chão menos fictício (?) que sua terra natal insistia em representar... Porém o fogo desse desejo, que move a muitos de nós, acaba nos levando de uma forma indefinida a diversos lugares ou situações. Sua volta a Paris é marcada por diversas mudanças em seu comportamentos, mudanças naturais que sempre vão se processando no intelecto e no sensível de cada um de nós, lições que aprendemos de ouvido ou na pele, lições que assinamos com a  nossa orelha ou com sangue mesmo. E eis uma lição no meio de tantas: "há homens que apenas têm por missão servirem de intermediários entre os outros: passam-se como pontes e segue-se adiante." (p. 248) E muitas pontes se fizeram entre Fred e seus objetivos que mudaram tanto e tantas vezes que não há necessidade de mapeá-los, seria mapear a própria lógica da existência. Porém, há uma reviravolta na história de todos, uma revolução, uma revolução qualquer que acontece a todos os momentos, sejam mais ou menos sangrentas, mais ou menos politizadas, mais ou menos circunstanciais, porém, Frederico estava tão dentro de si que não se lembrou de perceber os fatos que aconteciam fora de sua janela e se chegou a percebê-los fez de forma inconsciente: "Ah! lá estão liquidando algum burguês! - disse Frederico [junto a janela] com tranquilidade, porque há situações em que o homem menos cruel está tão desligado dos outros que é capaz de ver morrer o gênero humano sem um abalo do coração" (p. 292) Com a morte do gênero humano inteiro Frederico poderia, sim, ser exatamente aquilo que desejava, os outros e seus interesses de alguma forma não tão obscura atrapalhavam seu objetivo, sem eles, sem burgueses, numa outra e nova(-velha) situação política ele poderia ter tudo o que desejou. Não só ele, mas esse clima de anti-percepção do outro estava dominando a cidade do desejo, um guarda: "carregava a arma e atirava, sempre a falar com Frederico, tão sossegado no meio da revolta como um horticultor no seu jardim." (p. 294) Estavam todos recolhendo os seus tubérculos para o jantar, a ceia em que se farta de satisfação de si mesmo. Mas a terra não é boa, não tem nutrientes suficientes, precisa de revoluções para que novos modos possam ser cultivados. E da terra revirada novos insetos sempre surgem. Desculpem, não são insetos, vamos continuar explorando a primeira metáfora, são pontes, pontes que precisam ser cultivadas, algumas precisando de maior ou menor atenção nos reparos. Frederico inocente sempre cuidara de todas as pontes com a mesma atenção, na província não deveria haver muitas pontes, mas em Paris há pontes demasiadas e tratar de todas desgasta a própria existência, "Frederico teve vontade de lhe responder: "Não te inquietes! eu pagarei!" Mas a mulher podia mentir. A experiência já o havia ensinado. Limitou-se apenas a consolações." (p. 321) O pequeno ensinamento sobre as pontes tornou a sua vida mais interessante, seu romantismo, sua idealização foram minguando, as mulheres foram tornando-se mais vivas e também menos reais.
"[...] Rosanette não confessava todos os amantes, para que ele a estimasse mais; porque, no meio das confidências mais íntimas há sempre restrições, por falsa vergonha, delicadeza, piedade. Descobrem-se nos outros ou em nós precipícios ou lodos que impedem prosseguir; sentimos, aliás, que não seriamos compreendidos; é difícil exprimir com exatidão seja o que for eis porque as uniões completas são raras." (340-1)
A mentira estava a sua volta por falsa vergonha, delicadeza e piedade, as uniões completas além de raras eram invisíveis, cheias de mistérios, a fim de esconder muitas vezes somente o vazio de sua própria existência oca: "O coração das mulheres [e acrescento, do homem] é como certos moveizinhos de segredos, cheios de gavetas encaixadas umas nas outras; a gente incomoda-se, quebra as unhas, e no fundo apenas encontra alguma flor seca [quantos homens não tem flores tão secas em suas gavetas?], alguma poeira - ou então nada! E, afinal, receava vir a saber demais." (p. 399) Quanto mais sabia, mais se tornava vivo, mais tornava os outros vivos. Conhecer é humanizar o outro e a si mesmo, num lance paradoxal e ceticista. É uma espécie de colonização, onde muitos outros-iguais precisam por vezes até serem extintos para que a Metrópole do Desejo se estabeleça, as faces de Deus possam estar entre os homens, ou para que pontes sejam construídas ou destruídas. Há fatos mais traumáticos que outros, e há fatos traumáticos que não só resignificam a existência por-vir, mas resignificam a existência anterior, dando sentido e consistência a experiência já vivida, e a morte de seu filho, torna-se para ele o começo de todas as desgraças, como se nenhuma delas já houvesse se processado em sua vida, o que é impensável, visto que já estamos no fim do volume e que seu modo de vida já mudara muito da mesma e estranha forma que continuava o mesmo. Surge nele, como surge em muitos de nós, a vontade de conservar o trauma pela arte, queria eternizar a figura do filho que nascera morto, escolheu a pintura, poderia ter escolhido qualquer outro monumento que só tem por fim lembrar o que mais queremos esquecer. A lição monumental não estava numa pintura sob encomenda, estava em processo em seus atos e suas ideias: 
"Frequentou a sociedade, e teve ainda outros amores. Mas a recordação permanente do primeiro [o de Madame Arnoux] tornava-os insípidos; e, depois, a veemência do desejo, a própria flor da sensação, perdera-se. As suas ambições de espírito tinham igualmente diminuído. Passaram anos; ia suportando a ociosidade da inteligência e a inércia do coração." (429)
A recordação permanente do primeiro amor, monumento que só existe para ser esquecido, fez com que o desejo, as ambições do espírito, diminuíssem. Diminuíssem por serem inalcançáveis? Não, por serem demais para qualquer espírito, sonha-se muito alto, romantiza-se todas as ações, quer-se que grandes narrativas, narrativas heróicas, possam ser lembradas, mas a lembrança monumental, lembre-se, nasceu para ser esquecida. É aquele fato mínimo, minúsculo, ínfimo que por vezes relembramos todos os dias, não em forma de monumento, mas de processo. O processo que se elabora pela lembrança dos atos menores torna possível que possamos sentar no fim da existência, e tomar um chá com Deus (nestes momentos serve mesmo um amigo, ou mesmo um inimigo) e assistir ao crepúsculo do mundo e ainda poder conversar para de forma estranha e desnecessária resumir a vida:
"E [Frederico e Deslauriers, não único, mas insistente amigo de infância,] resumiram a vida de ambos.Os dois tinham falhado: [Frederico] que sonhara o amor , [Deslauriers] que sonhara o poder . Qual fora a razão?
- Foi talvez por não termos seguido a linha reta, - disse Frederico.
- Para ti, talvez. Eu, pelo contrário, pequei por excesso de retidão, sem levar em conta mil coisas secundárias, que são superiores a tudo. Eu, por excesso de lógica, tu, por excesso de sentimento." (436)
Seguindo em linha reta ou não, preferindo o amor ou o poder, ou um misto de tudo, ambos puderam concluir mesmo de que forma vacilante que: 

"- Foi afinal o que nós tivemos de melhor - disse Frederico.
- Sim, talvez. Foi o que nós tivemos de melhor - disse Deslauriers." (437)
O que aconteceu com cada uma das personagens, algo que permanece oculto por diversas razões, foi exatamente o melhor, não poderiam julgar de outra forma, insistentemente é-se quem é, alguns não querem ver, outros quando se permitem vislumbrar tal fato sentem-se chocados com a mais óbvia engrenagem do mundo, a si mesmo. Frederico, entretanto, teve seu momento de lucidez, o que faz afirmar sem um "talvez" que sim, foi o que melhor teve: "O rapaz reconheceu então o que a si próprio ocultara, a desilusão dos sentidos." (383) Desilusão que para ele se expressa, já que lhe foi determinado por Flaubert o caminho do amor, da seguinte forma sentenciosa: "Não valia a pena sofrer tanto por amores. Se um faltava, havia mais!" (363). Fato infalível é que Frederico não escolheu um só caminho, um único caminho foi escolhido neste mundo flaubertiano para ser narrado, mas tantos caminhos foram expressados, por vezes não só na figura da além-personagem de Fred, mas na figura e nas pequenas ações de tantas outras personagens, como na exemplar política da memória de Rosanette, que vimos logo no começo. Por fim, o que é a Educação Sentimental? Poderíamos acreditar que seria uma educação para a perversidade, ledo engano, no máximo a morte da inocência. Alguns críticos de Flaubert mostram que A Educação Sentimental seria o grande retorno de Flaubert ao Realismo, porém o ceticismo expresso na obra é o sentimento que movia a época, da mesma forma que o sentimento romântico também movia a mesma época, e não duvido que mova ainda alguns com os olhos e ouvidos mais ou menos atentos. A vida só poderia degenerar neste ceticismo, da mesma forma que em Machado de Assis com Brás Cubas e todas as suas negativas ou mesmo Dom Casmurro e sua necessidade confessional de culpar alguém por sua inocente juventude. O romântico pede perdão por viver antes mesmo de se matar, o realista quer enfrentar a vida como se lutasse contra ela. Eis como surge a necessidade da Educação Sentimental que se processa metodologicamente por cada desgosto que acontece na existência. E nós, filhos destes pensamentos extremos, até mesmo opostos, se lermos o realismo e o romantismo pelo senso-comum, Como devemos proceder? A Educação Sentimental nos bate a porta todos os dias enquanto acreditamos inocentemente no amanhã. A virtude de termos posse das duas visões só nos poderia fazer melhores, nem nos deixando cair num ceticismo, nem nos deixando iludir pela inocência. Mais um engano, poucos querem abrir os olhos e os ouvidos e assumir o deslocamento suplementar que as duas posturas poderiam nos fornecer. É ser nem romântico, nem realista, ou mesmo contemporâneo, como se isso fosse um valor, é ser humano por inteiro. O convite é permanecer com um olho aberto e o outro fechado, um ouvido entupido pelo senso-comum e o outro aberto para assinarmos discursos mais interessantes. O trabalho ou é abrir um olho ou fechar o outro. É deixar-se educar os sentimentos sem degenerar em ceticismo ou matar a inocência e permitir que seu fantasma continue a nos assombrar. É uma ética não extremista, é uma ética de e com deslocamentos que só se realiza pelo entendimento da multiplicidade de nós mesmos e de uma forma de resistência a toda e qualquer oposição determinante e/ou enclausurada. O livro de Flaubert narra, portanto, a Educação Sentimental de Fred? Não. Então, a educação de quem? A educação de todos nós. A nossa identificação com Fred nas mais diversas situações só mostra mais e mais que a literatura trata do humano, do profundamente humano.

O julgamento de Capitu ou "ler com" e "ler para"




Ezra Pound em seu ABC of reading me ensinou duas lições preciosas: ler com e ler para. Ele me convidou a assumir essa tarefa como professor de Língua Portuguesa, ou como professor simplesmente. Ler com os alunos é uma atitude encantatória: cria-se um momento propício para a leitura e neste momento os alunos ao me verem lendo ficam curiosos, querem saber, querem entender, quem imitar aquele ato. Levo grossos volumes para a sala de aula, e aqueles mais audaciosos que me veem arrancar o livro da mão para lerem o título do livro e o nome do autor, nomes aos quais muitas vezes não conseguem nem pronunciar, ficam com os olhos arregalados e tentados a quererem mais, dias desses Pride and Prejudice de Jane Austen estava circulando pela sala. E a lição mais preciosa: ler para os alunos. Sempre que estou a ler faço questão de iniciar a aula com o trecho ensaístico de algum romance ou uma poesia chocante ou sensual, quero mostrar-lhes o gozo que há na leitura. E sempre discutimos... questões relacionadas à gramática? Não, questões relacionadas ao existir. A literatura tem um pacto com a vida e não com a gramática. Propus-me, então um desafio: ler Dom Casmurro de Machado de Assis com os meus alunos no 9º Ano. "Este livro é chato", "tem palavras difíceis", "você não vai conseguir" foram alguns dos muitos argumentos (diria preconceitos) que tive que ouvir. Entretanto, não dei ouvidos, só somos uma grande orelha quando o que temos que escutar realmente tem sentido. Procedi a leitura lentamente, lendo performaticamente para cada um deles e ouvindo-os ler, tropeçando em palavras fora de uso (ou que foram esquecidas pelo uso demasiado prático da língua), esquecendo vírgulas, acentos, enfrentando a vergonha de ler para os colegas ou de ler sem fluência, mas também vi leitores vorazes que queriam ler a descrição de Escobar para poder apreciar em sua imaginação a singular beleza da personagem, ou mesmo rapazes que secretamente se apaixonaram por Capitu, por seus olhos, por sua sagacidade, alunos que escondiam os livros dentro da mochila para terminar aquela parte em casa ou saber o que viria a acontecer, que se impacientaram esperando o tão necessário beijo entre um penteado e outro, ou esperam o momento da duvidosa traição. Foram meses de trabalho, os alunos leram o livro sob os meus olhos, os que faltavam queriam saber o que perderam, exigiam-me um relatório dos últimos acontecimentos. Os preconceitos? Não sei onde foram parar, as palavras difíceis foram vencidas com perguntas ou com o dicionário, a chatice do livro é própria de um casmurro a tornar vivas as suas memórias. Lido o livro, convidei os alunos para o mais óbvia de todas as atividades: julgar Capitu. Seria ela inocente ou culpada das acusações? Não me importa, julgar Capitu era uma expressão que tinha o sentido deslocado em minha cabeça, significava: como este livro marcou aqueles muitos momentos em que estivemos lendo juntos, quais significados foram explorados, o que eles absorveram para si da experiência do outro. Não tinha necessidade de revelar meus segredos, minhas segundas intenções para os alunos ao propor a atividade. Por duas semanas a sala se dividiu como em uma guerra: os acusadores e os defensores. Folheavam o livro, procurando aquele trecho que construiria sua argumentação para o grande dia. Fizeram pesquisas na internet. Esconderam um dos outros o que estavam construindo. Para finalmente realizar uma acusação totalmente baseada no texto com seus argumentos mais contundentes ou uma defesa emocional apelando para os sentimentos mais íntimos dos jurados. Jamais esquecerei, ou não quero esquecer: os trechos lidos pela acusação ou as perguntas certeiras da defesa. Desta feita, a emoção ganhou da razão e Capitu foi inocentada. Desta feita, o "você não vai conseguir" se desfez como um castelo sobre a areia. Consegui conquistar todos os para a leitura? Não! a multiplicidade dos gostos não pode ser satisfeita, mas dos muitos que consegui agradar certamente marquei sua história de leitura. Não, minto. Machado de Assis conseguiu marcar sua história de leitura, da mesma forma que marcou a minha com Memórias Póstumas de Brás Cubas


(des)esperar


Desesperou. Já havia revirado todas as gavetas do quarto do tio. Uma por uma. Cuecas, meias e pequenos objetos foram jogados para cima e caíram sem destino, espalhados formavam um mosaico de uma pequena angústia. Procurava e se perguntava onde poderia estar... Resolveu olhar os bolsos das calças, paletós e não achou absolutamente nada do seu interessante, somente dinheiro, telefones anotados em pequenas folhas de papel e outros segredos que os homens guardam em seus armários. Passou para o maleiro, dezenas de caixas e objetos inúteis. Bufou enquanto tirava cada uma das caixas as quais destampava e virava sem dó, alguns dos objetos frágeis quebravam-se facilmente em contato com o chão, dando um ar mais agressivo ao mosaico angustiante. Destampou uma por uma até encontrar uma pequena caixa metálica, trancada por um cadeado miúdo. Torceu o cadeado, era deveras resistente, certamente estaria ali seu objeto de desejo. Chacoalhou-a ouviu secos ruídos metálicos se chocando. Sorriu enquanto seus olhos fremiam. A chave provavelmente estaria no chaveiro do dono da caixa, pensou enquanto descia os dois lances da escadaria que separava os quartos da parte comum da casa. Não havia razão para seu tio levar o molho de chaves para pescar, seu pai o acompanhava e ele como dono da casa abriria e fecharia cada uma de suas portas. Na mesinha de centro ao lado do controle remoto estava o molho e as chaves da porta de seu escritório, da casa do amante, do armário da academia e algumas outras chaves que perderam sua função ao enfrentar o tempo e as intempéries da existência. Entretanto, por mais que o tempo enegrecesse as chaves sem função aparente, foi exatamente uma delas, a menor de todas que abriu a caixa metálica. Precisou utilizar as duas mãos para erguer a tampa como a criar um momento de suspense. Sorriu enquanto seus olhos fremiam. Retirou com cuidado o frágil tesouro: uma pequena pistola .38. Abriu e rodou o tambor do mesmo modo que seu tio fazia quando queria se exibir. Preencheu lentamente cada espaço vazio com uma bala, agia a maneira de um ritual. Um ritual que encerraria de uma vez por todas com seu desespero.

Esperou. Com a arma carregada sentou-se no centro do tapete persa branco que dava para a porta principal da casa. Estava a espreita de sua vítima. Olhou o relógio pendurado em cima da porta. Era exatamente três horas da tarde. Não tardaria a chegar, podia até ouvir os ruídos que ele geralmente produzia. Pensou em quantas desilusões teve que enfrentar, quantas vezes desistiu de se formar, quantas vezes bebeu e arrependeu -se por não lembrar o que falou, quem beijou, o que dançou, quantas vezes teve que ouvir calado impropérios de seus familiares que só sabiam julgá-lo por cada passo, cada levantar de dedos, cada tossir, cada sorriso. O ruído ainda não era suficiente. A espera já estava deixando-o irritado. Sua mão tremia, já sentia que ele estava se aproximando. Lembrou-se de cada amor que teve ou que achou que teve, cada nome, cada rosto, cada sorriso, cada frase estúpida que teve que ouvir, cada submissão que teve que suportar por carência para não se ver sozinho novamente. Eram seus passos, seu trotar tamborilava em sua mente, era uma tortura. Sentiu-se uma bruxa na Inquisição, seus pés e mãos atados numa cadeira ornamentada, seu inquisidor abria o mecanismo que dispensaria em sua testa uma gota d'água a cada poucos segundos, no começo sentiria-se molhar, mas em poucos minutos a queda de cada gota pareceria uma martelada em sua cabeça. Mas ele não confessaria nada, suas memórias para si já eram recalcitrante o suficiente. Eram elas que precisavam ser caladas.

(Des)esperou. A vítima estava ali. Presente naquele mesmo tapete persa, sentado. Já falava alto, gesticulava para si mesmo, a arma balançava de um lado para o outro, os olhos seguiam cada movimento com medo. A espera valeu a pena, tudo para matar aquele que causava o desespero e calar aquelas vozes da memória. Apontou a arma para sua cabeça, destravou e sentiu o frio do gatilho. Ainda pode ouvir um último lampejo: o quanto se dedicara aos outros e esquecera de si mesmo. O estampido da bala brilhou. Nenhuma memória era ouvida naquele momento, seu corpo caiu e o buraco em sua cabeça jorrava sangue, matéria da memória que manchava o tapete. Finalmente, sua vítima não existia mais, seus memórias não o perturbariam mais. Seu tio nem se importaria com a bagunça do quarto, os objetos quebrados, os segredos revelados. O sobrinho estava morto, (des)esperou muito tempo, e finalmente ele estava morto e toda a memória estava silenciada.

Líquens, Musgos e Gosma


A porta de seu quarto sempre estava fechada. Mas algumas batidinhas secas e ritmadas nunca deixavam de perturbar o peso natural que se arranjava ali dentro. Já era possível ouvir alguns passos como a caminhar sobre uma grama espessa, e por fim o destrancar da porta. A luminária não era suficiente para manter o quarto iluminado, permanecia numa penumbra insistente. "Meu filho, abra essa janela para ventilar um pouco o quarto! E me passe sua roupa suja, agora!" Os olhos do rapaz não se sobresaltaram, simplesmente se ergueram a altura do rosto da mãe para novamente visar o chão. Quando ele se voltou para buscar suas roupas, ela deu uma olhada perscrutadora pelo quarto. A quase-escuridão não permitia distinguir uma sombra da outra, mas tudo estava lá. Sob os pés da cama, raminhos de uma grama escura. O guarda-roupa marrom estava manchado pela presença de líquens de variados tons de verde. Sob sua mesa de estudos, o canto mais escuro do quarto, foi onde ela se assustou, conseguia somente distinguir um par de olhos fendados. Entretanto, não teve tempo para expressar seu choque, as roupas já estavam ali, meio úmidas, meio mofadas. "Vou limpar seu quarto mais tarde!" O aviso teve um tom de ameaça.
Ele não entendia essa mania de limpeza de sua mãe. A casa tão alva, com as paredes brancas, o piso reluzente, e os móveis todos em tons pastéis davam um ar pasmacento para o lar. Ele não se importava a ponto de reclamar... Passava quase todo o tempo dentro do quarto. Ali, sim, era onde reinava soberano. Com a porta e as janelas fechadas e tapadas pelas grossas cortinas de jacquard, não havia necessidade de luz, o ambiente não deveria ser fresco, mas soturno. O peso que a falta de luz produz é exatamente o necessário para que ele pudesse criar. Era tal qual um musgo, muita luz e muita ventilação retiravam dele a força necessária para viver, absorviam toda a sua energia e murchava.
Nas últimas férias de verão praticamente definhou tamanha a luz e a força da brisa marítima. Deitava-se na areia todo emplastrado de filtro solar e demorria horas a fio. Sua mãe o chacoalhava, sem êxito, até que ele mesmo poucos segundos antes da morte, reanimava-se a corria para dentro do quarto do hotel, um banho gelado e o pouco contato com seus familiares o recuperavam. É claro, até descobrir o mangue que havia não tão distante dali. Em meio a lama e a sombra das árvores sentiu-se a salvo, poderia viver ali por decênios sem precisar de ar ou até mesmo comida. O cheiro mórbido era capaz de mantê-lo inteiro e existindo. Suas ideias nunca fluiram tão bem quanto naquele lugar. Entretanto, as férias sempre um dia terminam e teve que voltar para sua casa fluida e leve.
Sem sua energia formada pela fusão de fungos e algas não poderia pensar ou criar. Seus pensamentos ansiavam pela simbiose de organismos diferentes para poder gerar algo novo e que realmente se suplementasse. Era o que sua mãe não entendia. A cada limpeza do quarto era como se todas as ideias fossem embora, novamente precisando ser incubadas por um longo tempo, sorvendo a rala força da escuridão e absorvendo aos poucos a umidade da atmosfera por vezes rarefeita.
Os dedos de sua mãe tremilicaram antes de tocar o interruptor de luz, ante a ansiedade de ver tudo aquilo sob a luz mesmo que artificial. Seria o que garantiria a ela a entrada no quarto para poder alcançar as janelas. Onde estariam aqueles olhos fendados? A cortina cedeu não sem resistência, e o ambiente parecia violentado por uma vontade indiscreta. Alguns musgos e líquens se desfizeram como um toque de mágica pelos raios solares. A cabeça dele parecia esvaziar. Vassoura, balde, rodo e pano. As mãos trabalharam com uma urgência indeterminada. Era necessário livrar-se daquele ar tóxico que com certeza não faria bem ao seu filho, aquela ausência de vida era o que tornava-o apático e desmotivado. Finalmente, embaixo da cama era o único lugar em que seu pano purificador ainda não tinha tocado. A luz hostil da janela ou da lâmpada insistentemente não atingia ali, mas a vassoura e o rodo tinham um longo cabo para esse tipo de serviço.  O vassoura penetrou embaixo da cama como se estivesse furando uma gelatina, ela não estranhou, pensou na resistência da escuridão. Todavia, na terceira ou quarta estocada contra a escuridão, a vassoura não queria voltar. Puxou com muita força, força esta que somente certas mães possuem, mas mesmo assim perdeu a vassoura na escuridão. Invencível, ela não desistiu, pegou o rodo, encharcou o pano com desinfetante e voltou ao seu trabalho, desta vez o rodo voltou sem sua base, o cabo havia sido mordido por dentes fortes e afiados.
Corada, resolveu ajoelhar-se há uma certa distância para entender o que se passava embaixo daquela cama. Apertou os olhos como se aquilo torna-se sua visão mais aguçada e empalideceu, ali estavam os olhos fendados e um sorriso mórbido de boas-vindas. Muda, entendeu o que se passava ali. Pegou o resto de seu rodo, sua vassoura e o balde e seguiu para a enorme lixeira da área de serviço. Estava decretada a Era dos Línquens, Musgos e Gosma. A falta de vida no quarto de seu filho era aparente, ali reinava um mundo não novo, mas diferente de ideias que ela aprendeu a admirar, a vida do lodo, a existência a partir dos gases tóxicos. Fungos e algas agora se uniam no meio da sala-de-estar formando desenhos indistintos, da mesma forma que mãe e filho agora formavam um único simbionte criativo. Novos pensamentos circulavam pela sala juntamente com aquele ar úmido e pesado.

A senhora Hermann e vovô já em travessura.

[revisto em fevereiro de 2013]

Seu nome ecoava por todo o casarão, dois pisos vibravam ao som da voz do vovô Hermann. O grito cadavérico e rouco não perturbavam os bem treinados ouvidos da senhora Hermann, suas mãos não tremiam ao ouvir seu nome, continuavam a tricotar levemente, como se nada houvesse acontecido. A casa demovia-se, ainda não havia se acostumado com a presença inóspita do morador. Terminada aquela volta no trabalho delicado que suas mãos finas realizavam, juntou a linha com a agulha e depositou-as na cesta ao lado de sua confortável poltrona. Levantou-se levemente, com as mãos espalmadas retirou os fiapos de seu vestido etério e seguiu pelas escadas um degrau de cada vez em direção ao quarto de seu pai. Quando seus passos foram ouvidos no assoalho, novamente o grito ecoara. "Não vê que se eu estivesse morrendo, teria somente encontrado um cadáver inerte?" Qualquer desculpa aos seus ouvidos não surtiriam efeito, desde que deitara naquela cama, o mundo passou a girar em torno dele e por mais que os filhos da senhora Hermann lhe houvesse pedido para contratar um enfermeira para vovô, ela não se importava de realizar aquele serviço, acostumada com as intempéries de seu caráter, não tinha motivos para desgastar seus filhos. As suas reclamações pararam de surtir efeito: "O que deseja, vovô?" aquelas palavras saíam de forma cantante de seus lábios enquanto suas mãos abriam as pesadas cortinas do quarto pela primeira vez naquele dia. "Tenho noventa e oito anos e já não posso mais levantar desta imunda cama que agora é minha mortalha..." Olhou para o lado direito, enquanto tentava lembrar o que desejava, viu seu livro, um copo d'água, seus óculos e uma xícara de chá vazia. "Traga meus remédios, já passou da hora. Lembra-se que dr. Andrade disse-nos que meus remédios não podem esperar, precisam ser ministrados exatamente nas horas determinadas!" Hermann olhava a filha como se ela fosse uma pessoa leviana, que preferia vê-lo morto do que atender ao pedido de um moribundo. A senhora riu, muito solícita, e desceu as escadas lentamente. No balcão da cozinha havia uma lista de remédios e seus respectivos horários, olhou o relógio de pulso, apreciou o ponteiro dos segundos deslizar lentamente realizando uma volta completa em si mesmo. O tempo era exatamente daquela forma, por mais que se movesse, sempre voltava ao mesmo ponto de partida. O relógio não demarcava que o tempo avançava, mas demonstrava sinceramente como todos os segundos eram exatamente iguais. Selecionou os comprimidos colocou-os num pires, arrumou uma bandeja com uma garrafa e um copo. Levou-a sem pressa até o quarto do pai. O quarto estava escuro. Depositou a bandeja no criado-mudo e novamente abriu a cortina, sem repreensão ou interesse. "Preferiria morrer a dar-te todo esse trabalho, sabes muito bem disso? Não é, minha querida?" Virou o rosto em direção ao velhinho que tomava uma pílula atrás da outra. Ele a olhou de soslaio, vendo seu sorriso que não parecia forçado, corou. "Não se esqueça de trazer-me o jornal quando subir novamente, no próximo horário dos medicamentos", novamente desceu sem pressa. Desta vez seguiu para a biblioteca, olhou os livros como se perscrutasse fantasmas. Arrepiou-se. Escolheu um grosso volume de capa dura e sentou-se. Folheou as páginas e parou na presença do capítulo XXXI, leu o primeiro parágrafo e sorriu. Sim, ele a abraçava, com uma força necessária, os dois estavam ainda por testar o amor que sentiam um pelo outro. Tudo é muito leve no começo de um relacionamento, pensava cada um deles, ao mesmo tempo que gostariam que pudessem afirmar que o outro realmente o amava da forma que distribuía seu próprio amor. Ela riu, o livro agora era como um escudo pousado em sua barriga, e o escudo se chacoalhava ao sabor da leve gargalhada. Suspirou, parecia cansada de rir da desnecessária preocupação das jovens personagens, continuou a leitura e suspirou mais uma vez, agora sim, cada um tinha a certeza absoluta do amor que um nutria pelo outro. Sentiu-se feliz por um instante, todas as preocupações se foram, enquanto eles se beijavam em entrega total. Viu-se com quinze anos novamente, vovô Hermann era um homem altivo e impunha presença, todos os rapazes da rua morriam de medo de serem estrangulados por aquelas mãos pesadas e grandes. O poder do olhar de vovô poderia matar um pequeno bem-te-vi em milésimos de segundos, dizia os boatos na rua. Já que nenhum deles tinha coragem de lhe falar, era a senhorita Hermann que andava pelas ruas aos risinhos para encantá-los com seu caminhar diáfano. Mas a presença diabólica de seu pai precedia seu trotar pelas calçadas e todos os rapazes se escondiam de sua beleza exultante... Sorriu amargamente, todos eles se casaram e se foram. A palavra beijo, namoro ou casamento eram proibidas dentro da casa dos Hermann, tabu especial que só poderia ser resolvido dentro dos quartos aos cochichos, assim se casou sem saber com quem exatamente estava se unindo... a única certeza que tinha era que... seu nome ressoava novamente pela casa, cada livro tremia com as vibrações do grito do vovô Hermann. Sorriu enquanto subia, o quarto novamente escurecido foi iluminado pela reabertura das cortinas. "Quero que reúna seus filhos, preciso ter com eles antes de deixar essa vida amargurada que passo ao teu lado", ela não se abalou, "Sinto-me um fantasma nesta casa, preciso arrastar correntes para poder ser percebido e merecer tua atenção." Da última vez que havia dito aquela frase, complementou dizendo que sentia que sua morte seria tal como um exorcismo na mente de sua descuidada filha, visto que o velho fantasma desapareceria de vez. Garantiu também, que ela não herdaria absolutamente nada, tudo passaria às mãos dos netos, estes sim, saberiam o valor que aquele velho possuía e utilizariam cada centavo de sua fortuna com perspicácia, sem romantismos ou pensamentos comunistas. "As duas personagens ainda se amarão ternamente por mais dois ou três capítulos? Não lembro..." era o que pensava enquanto dizia que ligaria para seus filhos, convidando-os a jantar: "Celebram a minha morte! Não ouviu que quero vê-los porque sinto que estou partindo?" Enquanto resmungava outras palavras já ininteligíveis aos ouvidos da senhora Hermann, descia as escadas e pegara sua agenda telefônica, procedeu como sempre, ligou primeiro para o filho mais velho e seguiu até ouvir a voz do caçula. Reaberto o livro, leu em voz alta mais dois capítulos, entregou-se àquele amor incondicional que somente os jovens poderiam viver. Lembrou-se da única certeza que abandonara nos últimos capítulos: o noivo que se atrevesse a casar-se com a senhorita Hermann ou era muito corajoso ou muito medroso. Realmente não sabia se seu defunto marido havia pedido sua mão em casamento ou se ela por inteira teria sido oferecida num bazar qualquer de alcoviteiras. Riu-se, mais uma vez, o jovem casal já se despedaçava em desesperanças com a paixão que morria no último capítulo. Uma frase mordaz dita pela mulher ao amado encerrava a obra, pensou que poderia ter repetido o mesmo dito ao seu próprio marido se ele houvesse retornado da guerra... Mas não teve a oportunidade, ele não tinha a presença de seu pai que vencera tantas guerras, principalmente aquela guerra que levou sua mãe ao suicídio. Tinha certeza que a carta endereçada ao pai ainda palpitava em alguma caixa escondida no cofre atrás do retrato da mãe que ainda hipnotizava-a. "Seus netos estão a caminho, e não ficam para o jantar" dizia enquanto abria as cortinas mais uma vez, "Não será hoje que celebraremos a morte, quem sabe na semana que vêm? Ou mesmo daqui a cinco anos?"

A morte da morte

"Não sou sábio nem ignorante. Conheci alegrias. Isso não diz muita coisa: vivo, e a vida me dá um enorme prazer. Quanto à morte? Quando morrer (talvez daqui a pouco), conhecerei um prazer imenso. Não falo do antegosto da morte que é insípido e frequentemente desagradável. Sofrer é embrutecedor. Mas esta é a verdade notável da qual estou seguro: experimento um prazer sem limites em viver e terei uma satisfação sem limites em morrer. (Maurice Blanchot)


Ivan Ilitch morre na primeira página da obra de 1886 de Lev Tostói. Entretanto, a narrativa não morreu com ele, ela nasceu. As narrativas se escrevem sob o corpo morto. Seja esse o corpo da página em branco, seja esse corpo o de Ivan Ilitch, ou seja o nosso corpo quando escrevemos nossas memórias. A narrativa deve ter tido o mesmo pensamento que todos aqueles que trabalhavam com Ivan Ilitch: "Aí está, morreu; e eu não' - pensou ou sentiu cada um" (TOLSTOI, 2006, p. 9), esta é, geralmente, a primeira impressão quando alguém não muito próximo morre. Pode-se negar, numa fingida misericórdia cristã, mas os instintos humanos nos levam até esse momento, o humano que há em cada um faz com que pense inconscientemente na preservação da própria vida em primeiro lugar. Porém, a narrativa não tem esses escrúpulos cristãos sobre a morte, realmente pensou: ele morreu e eu não. E a partir desse pensamento, passou a refletir nesse interdito que a morte se tornou, por vários motivos que não merecem ser enumerados de tão pequenos e mesquinhos que são. Os amigos reunidos de Ivan Ilitch em torno da notícia de sua morte começaram a pensar no futuro, nas promoções que a morte de um juiz, como o personagem principal, poderiam causar. A narrativa, entretanto,  não olhou para o futuro, olhou para o passado. "Quanto mais voltava para trás, mais vida havia". (TOLSTOI, 2006,  p. 70). E a narrativa estava interessada na vida. E nos trouxe ao ouvido a história de Ivan Ilitch. Como chegou ao momento que chegou, o que teve que sofrer e fazer sofrer para poder ser quem era, ter o que tinha e pensar o que pensava. Ivan Ilitch como qualquer ser humano estava mais interessado no futuro do que no presente, construiu uma carreira, lutou por ela ao lado de uma mulher que não amava, visto que seu casamento foi um cômodo negócio. Mas o que Ivan Ilitch não esperava era ser surpreendido pelo presente. Sua doença, um tormento impossível de ser identificado, fez com que seus pensamentos se voltassem para o presente, o futuro deixou de existir, e o passado teve que ser repensado, repisado:
"Assim como os tormentos se tornam cada vez piores também toda a vida se tornava cada vez pior" - pensou ele. Havia um ponto luminoso alhures, atrás, no começo da vida, e depois tudo se tornava cada vez mais negro e cada vez mais rápido. "Na razão inversa dos quadrados da distância para a morte" - pensou Ivan Ilitch. (TOLSTOI, 2006, p. 70)
A presença do presente teve duas damas de compainha, no caso de Ivan Ilitch: a Memória e a Morte. Aquela sempre morta, esta sempre por morrer. A memória geralmente é convidada por aqueles que reconhecem a proximidade da morte, muitas vezes é uma "eterna" companheira daqueles que já alcançaram a velhice. Não era o caso de Ivan Ilitch, ele tinha outra companheira: a Morte. Por mais que todos ao seu redor negassem sua presença, ele sabia que ela estava ali, proporcionando-lhe um dos momentos mais lúcidos de sua vida. Por isso poderia dizer livremente que não morrer era uma "mentira por algum motivo aceita por todos" (TOLSTOI, 2006, p. 55). É uma esperança, uma ilusão que alimenta a todos, não por um motivo incerto: mas pelo simples motivo de que enfrentar a morte não faz parte da educação do homem, pelo contrário, ele é preparado todos os dias para sofrer com a morte e fugir dela, e desse sofrimento obter mais e mais repressões que o farão uma pequena miséria humana quando precisar enfrentar sua própria morte. Por outro lado, há alguns homens que não são assim, e no caso de Ivan Ilitch era Guerássim. Um homem simples, com um pensamento simples: "Todos nós vamos morrer. Por que não me esforçar um pouco?" (TOLSTOI, 2006, p. 56). São das cabeças dita menores, das cabeças falsamente simplórias que algumas importantes lições aparecem. Sempre me lembro das perguntas de Macabéia em A hora da estrela de Clarice Lispector ou mesmo dos monólogos interiores dos personagens de Vidas Secas de Graciliano Ramos, principalmente do filho mais novo, do filho mais velho e da cachorra Baleia. Todos ao redor de Ivan Ilitch acreditavam em uma mentira, Guerássim não, compreendia e solidariezavasse com o moribundo: todos nós vamos morrer. Exatamente por este fato Ivan Ilitich preferia a vitalidade, a força e a saúde de Guerássim e não dos outros personagens. A vitalidade daquele que se agarra a vida é uma afronta ao moribundo, aquele que já tem como companhia a Memória e a Morte:
[...] E, fato estranho, teve a impressão de sentir-se melhor enquanto Guerássim segurava-lhes os pés. A partir de então, Ivan Ilitch chavama às vezes Guerássim, fazendo-o segurar os seus pés sobre os ombros, e gostava de conversar com ele. Guerássem fazia isto com leveza, de bom grado, com simplicidade e uma bondade que deixava Ivan Ilitch comovido. A saúde, a força, a vitalidade de todas as demais pessoas ofendiam Ivan Ilitch; somente a força e a vitalidade de Guerássim não o entristecia, e sim acalmavam-no. (TOLSTOI, 2006, p. 55)
Guerássim é uma vitalidade acalmante. Um sopro de vida para aquele que tem a Morte como companhia, mas a morte é certa, já está lá, e fala com ele:
- Acabou! - disse alguém por cima dele. Ouviu essas palavras e repetiu-as em seu espírito. "A morte acabou - disse a si mesmo. - Não existe mais. Aspirou o ar, deteve-se em meio suspiro, inteirou-se e morreu. (TOLSTOI, 2006, p. 76)
As últimas linhas da obra são o momento de maior lucidez de Ivan Ilitch. A Morte acabou, deixou de existir no momento que Ivan Ilitch também deixou de existir. É aí que a narrativa termina, novamente com os olhos no presente. É aí que as pessoas vão pensar no futuro. É aí que começa a minha dúvida: a morte da morte. Jacques Derrida nos ensina que a morte não pode ser um interdito, visto que é somente pela existência da morte que a vida possui algum sentido. "Convém pensar no porvir, ou seja, na vida. Ou seja, na morte" (DERRIDA, 1994, p. 154). É na diferença entre a vida e a morte que a vida ganha sentido, para tanto ele passa a utilizar uma expressão como uma palavra com esse sentido: a vida a morte. O que A morte de Ivan Ilitch provoca é a ruptura/efração desse pensamento, se a morte acaba, deixa de existir, a única coisa que poderia dar um significado para a vida, faz com que ela deixe de ter sentido. A vida volta para o estado original da dúvida. Por que vivemos? Para que vivemos? A não educação para a morte faz do ser humano um ser agarrado ilusóriamente a vida, por mais que ela seja um estado de dúvida não passível de resolução. A vida como dúvida, faz com que o homem pense e reflita os seus atos, faz com que aja de maneira completamente diferente do animal que procurou se diferenciar. Portanto, é a morte que faz com que a literatura seja, que a arte e a filosofia, cada uma com sua linguagem, continuem intermináveis. Resolver a significação da vida pela morte, a vida a morte, não nos conforta, e nem confortou Derrida: "Seria preciso sempre que mortais ainda vivos enterrassem vivos já mortos" (DERRIDA, 1994, p. 156). Para encerrar, ainda sem um ponto final, concluo que a manutenção da vida como dúvida pela morte da morte rompe com uma conformidade com a ilusão. Iludidos seguimos agarrados a vida, quando duvidamos da vida nos desgarramos daquilo que mantém o ser humano preso a certas ilusões conformistas. A ruptura que A morte de Ivan Ilitch causou nas minhas certezas sobre a vida é só o começo de um pensamento diferente sobre a vida, que não termina aqui e nem poderia. É um primeiro trauma/efração nas estruturas que pareciam sólidas. É a dúvida o que se segue, e é o que me coloca em movimento, caminhando novamente.

Referências

DERRIDA, Jacques. O Espectro de Marx: o estado da dívida, o trabalho do luto e a nova internacional (trad. Anamaria Skinner). Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.
TOLSTOI, Lev. A morte de Ivan Ilitch. (trad. Boris Schaiderman). São Paulo, Editora 34, 2006. (Coleção Leste)

Cinzas

"Viver, amar, morrer, acordar, dormir, sonhar, escrever, construir ou, enfim, desconstruir seria com efeito trabalhar no horizonte do impossível." (Evandro Nascimento em Derrida e Literatura)

Estava coberto de cinzas. Cada centímetro de seu corpo estava coberto pelo resto do resto de suas cartas queimadas. Uma pira enorme com mais de duzentas cartas incendiadas. Os sentidos se desfizeram em desfervor. Todas as cartas que enviou eram sobriamente incendiárias, achava que estava conquistando o outro pela conversa, a flama amorosa, mas não. Suas cartas incendiadas eram somente uma pequena centelha que morreu logo. E que ainda morreria mais uma vez.

O telefone havia tocado insistentemente aquela manhã e ele insistentemente se recusava a atendê-lo. Quem em sã consciência ligaria para ele numa manhã de domingo? Não sabia que estaria escrevendo? Criando? Sonhando? Uma ousadia interminável. Normalmente já não recebia ligações. Normalmente não passava seu telefone particular para os amigos ou conhecidos... Quem poderia ser? Resolveu atender. Lembrava da vez que seu irmão fora demitido, recebeu uma ligação chorosa e teve que emprestar alguns mil reais para que ele pudesse voltar para sua cidade natal e ficar debaixo das asas da mãe protetora que nunca abandonaria um filho ao relento. Lembrou-se também de quantas vezes sua mãe não o ajudou a mudar-se de cidades, de quantas vezes ele teve que vagar invariavelmente para poder conseguir abrigo, de quantas vezes se humilhou perante a sociedade para conseguir o sustento que lhe garantiria o tempo inviável necessário para escrever. Lembrou-se de quantas vezes não recebia ligações de seus pais, de quantas vezes já mudou de telefone e sempre deixava o número com a empregada da casa, já que sua mãe não lhe atendia. Lembrou-se e não ficou tocado. Já estava resistente àquele tipo situação. Quantas vezes escutou a mofa de sua família, foi exatamente quantas vezes tentou reconciliar com cada um deles. Resolveu não atender mais. Sentou-se novamente em frente do computador, mas não conseguia se concentrar. O telefone tocava novamente. Levantou-se, iria atender. Sentou-se novamente, decidira escrever uma carta para Heart, iria novamente lamentar-se de sua família. Quando pegou o papel e a caneta e colocou cuidadosamente o local e a data, o som do telefone mais uma vez o desconcentrou. “Alô?”, sua voz não poderia mostrar receptividade depois de mais de dez perturbadoras tentativas de seu interlocutor. Era o advogado da família Kunst, “cuido do espólio do senhor Juliano Kunst, e ele o menciona em seu testamento. Poderia vir a São Paulo tomar posse de sua parte da herança?” Demorou algum tempo para reconhecer nomes tão estranhos aos seus ouvidos.

“Desculpe interromper... Meu nome é Juliano, mas todos me chamam Heart.” Ainda se sentia culpado pela resposta mal humorada que deu à mesa do bar do Hotel Kennedy. Não poderia prever que Heart seria um nome que escutaria todos os dias em que passou em Florianópolis. Lá estava ele em sua palestra, na mesa ao lado nos restaurantes da ilha, no bar. “Maurício, você conhece aquele homem loiro?” É claro que o conhecia, Heart patrocinava o ciclo de palestras em que participava. Sentiu uma ponta de culpa que logo passou, não tinha que puxar o saco de patrocinadores, estava ali porque era exatamente aquele que gostaria que estivessem ali. Tomou mais dois drinks e tocou o braço de Maurício, era o sinal costumeiro para ir. “Heart não falou contigo no hotel? Vocês estão no Kennedy.” Ainda se arrependia de sua resposta. Foi a primeira carta que trocaram. “Em que quarto o Sr. Juliano está hospedado?” Era no fim do corredor de sua suíte. “O senhor não quer entregar pessoalmente esta carta? Ele acabou de chegar... Posso ligar em seu quarto e anunciá-lo!” É claro que não iria entregar nada pessoalmente.

A resposta seca era convidativa: “Posso te esperar para irmos juntos a palestra de hoje? Às 19h30 no hall?” Solicitou que a recepcionista ligasse em seu quarto dizendo que aceitaria o convite. “Deseja falar com ele?” Certamente não.

O jornal da cidade estava de pé, e uma folha se passava quando colocou os pés no hall. Os olhos de Heart não se voltaram para ele, “comentários sobre sua palestra de ontem estão em todos os jornais”. Pela primeira vez demonstrou seu desprezo por toda a publicidade que rondava sua vida pública e Heart sorriu, concluiu que ele era exatamente quem ele gostaria que estivesse ali. No caminho, nenhuma palavra sobre a resposta à primeira tentativa de aproximação de Juliano e também nenhuma palavra sobre o evento que organizara. Os dois falavam sobre os livros que ambos haviam publicado. Cada um em sua área, Juliano nas artes plásticas e ele na literatura. Eram críticos de arte e só tinham palavras de críticas cada um para com seu próprio livro. Dos seus livros para outros livros, críticas e mais críticas. Dos outros livros para a palestra. Um escritor contemporâneo qualquer iria falar sobre qualquer brevidade que sua obra buscava em vão representar. Sim, críticas. Juliano havia se recusado a compor a mesa redonda que este escritor estaria presente, apesar da insistência dos outros organizadores... entretanto, era ele que estava pagando pela aquela orgia cultural, portanto...

Da palestra para o bar, o papo de bar era um tanto ameno: viagens. Das viagens para o hotel, no hotel no quarto de Juliano, uma bela vista para um mar um tanto não saudável. Riram... falaram do romantismo daquela vista. Olharam-se e riram novamente. Nenhum dos dois havia falado em romance, mas haviam pensando e pensado a noite toda. As palavras não representavam vontades, mas os gestos representavam o desejo, acima de qualquer circunstância. O desejo toma o lugar das palavras e a vontade dos pensamentos: a perfeita ordem das coisas.

Juliano deveria permanecer na cidade por mais uma semana para cuidar da pós-produção do evento, porém ele ia naquela mesma noite. Deixou seu endereço sobre o criado-mudo. As cartas vieram e também foram. Várias delas, durante meses e meses.

São Paulo era terreno inóspito, por isso decidiu voltar para sua cidade natal depois de tantos anos. Estar em São Paulo era anunciar a morte de sua própria escrita. O ritmo desenfreado que enfrentava fazia com que se ocupasse mais com outras obrigações do que com escrever. Pisar naquela cidade era lembrar exatamente tudo o que viveu e o que deixou de viver: os desgastes, as desventuras, e a solidão. Recluso em si mesmo, viveu tal qual misantropo numa multidão que passa rapidamente pelas vitrines. Um prédio, um escritório, um advogado como tantos outros que ali existiam lhe deu o endereço da casa de Heart. “Já estava o esperando!” foram as primeiras palavras que escutou da mãe de Juliano. Sentiu-se desconfortável. Um chá no jardim. Não entendia qual espólio seu amigo poderia ter deixado para ele. “Reconciliaste com sua mãe?” Como aquela mulher que nunca havia visto poderia estar perguntando da única mulher que o poderia tirar do sério? “Li as cartas que mandaste para Juliano”, Então, sabe todos os meus segredos!”, “Não, os seus segredos estão estampados em sua face! Não é preciso saber ler, ou perder horas no quarto de um filho assassinado, em busca de um conforto, para poder entender sua razões e motivações de existir.” Disfarçando, sentia-se nu perante aquela potência, Juliano era um intérprete pálido perante sua mãe. Ela imóvel continuou: “Juliano não lhe deixa dinheiro, livros ou quadros... Juliano lhe deixou exatamente o que já era seu: suas cartas. Acredito que ele queria que eu não soubesse de seus segredos, dos segredos de ambos, mas se os teus segredos estão estampados em sua face, os de Juliano estavam espalhados pela casa, nos quadros e nos seus livros”. O silêncio era certamente de vergonha, e por mais que ela tentasse tornar a situação menos embaraçosa para ele, ela jamais conseguiria vesti-lo. “O que vai fazer das cartas?” No quarto de Juliano tudo estava já encaixotado, apontada a caixa de cartas, ambos se ajoelharam e se perderam nas pequenas narrativas que cada uma possuía, e nas narrativas respostas que somente ele conhecia e que a mãe poderia desconfiar. “Vou queimar as cartas!” Ela não se assustou, levantou-se e trouxe os aparatos para queimá-las. Na lógica das cinzas, o excesso são o fogo e a fumaça, sobra de energia, e o essencial é o que resta, as cinzas.

Estava coberto de cinzas. Cada centímetro de seu corpo estava coberto pelo resto do resto de suas cartas queimadas. Uma pira enorme com mais de duzentas cartas incendiadas. Os sentidos se desfizeram em desfervor. Todas as cartas que enviou eram sobriamente incendiárias, achava que estava conquistando o outro pela conversa, a flama amorosa, mas não. Suas cartas incendiadas eram somente uma pequena centelha que morreu logo. A amizade que os ligou era o essencial, o resto era fogo e fumaça. Não eram dois amantes, eram dois amados.

Recolhida as cinzas na caixa, somente o essencial restou. Nada de palavras, folhas ou tinta, somente cinzas. Quando chegou em sua casa, olhou para o telefone, muitas chamadas não atendidas. Haveria recados na secretária eletrônica? Que importa. Pegou todas as cartas de Heart e juntou-as com as cinzas. Mais uma vez tudo deveria ser queimado, até restar cinzas. O fogo no início foi tímido... mas quando entendeu que somente assim se poderia cumprir sua tarefa, destroçou tudo o que viu pela frente... não lhe importava se eram folhas ou sua carne fresca. No final, só restou cinzas, o essencial de cada um.

O gosto do segredo

a Paulo

Ele sempre teve um sonho: ser cego. Incomum, mas viável. Enxergar o mundo, ver a (des)vida era surpreendente, mas e o oposto, num maniqueísmo eficaz? Acreditava que seus sentidos, os outros, se aguçariam a tal maneira que poderia perceber um outro gosto da existência. O sonho se tornou realidade, por um acaso, como tudo é acidental, operava os olhos para poder ver melhor, uma operação simples e segura e nunca mais percebeu a luz. Os médicos lastimaram, ele se felicitou. Seu sorriso radiante ao sair do hospital era de um homem realizado.

Acostumar-se com o outro mundo, um pouco mais escuro, tenebroso e cheio de cheiros, sons e gostos não foi tão difícil, afinal, estava feliz, tinha o único sonho de sua existência realizado. No começo seus parentes e poucos amigos os acompanhavam a todo o momento, julgando-o dependente, mas não, não poder enxergar era a melhor liberdade que poderia viver. Dispensou todos, um por um. Sua rotina se alterou, as novas percepções faziam de tudo um gesto único, especial, inacreditável. A miríade de sensações o deixava extasiado, havia ali sempre um sorriso inviável em seu rosto. Ninguém o vira sorrir tanto, calado sorria, os amigos que o olhavam faziam caras e bocas de desaprovação. Não era assim que a felicidade deveria ser, ele deveria enxergar, conhecer alguém especial, subir em sua carreira profissional, finalmente quitar sua casa, trocar de carro, viajar, conhecer o Oriente e experimentar o cosmopolitismo de algumas cidades distantes. Mas não, ele sorria a mesa de um bar, ao tocar o copo gelado de cerveja, ao passar de um homem perfumado, ao esbarrar em alguém fedendo à cachaça.

Sua felicidade era perturbadora, seus amigos queriam ajustar isso. Celina ficou responsável por arranjar alguém para conhecê-lo, um advogado, um fisioterapeuta ou um médico. Pessoas que não tinham nomes, mas tinham profissões, altura, cor de pele, olhos e cabelos. Classificadas em dois gêneros: bonitos e pegáveis. Celina conhecia o gosto de seu amigo para homens... por isso mesmo ficou responsável por essa questão. Alcides o ajudava no trabalho, três vezes por semana ia a sua casa e lia os livros em voz alta, fazia anotações a seu pedido e o ajudava a digitar os textos para os alunos. Nos saraus Alcides havia sido elogiado por sua dicção, e deveria ajudar o amigo a passar no concurso para professor titular. Samanta levou-o a Paris no ano passado e já planejava uma visitinha rápida a Nova York, os sorrisos dele nas praças parisienses a desassossegavam, porque ele não poderia ver aquelas cidades envelhecidas, cheias de mistérios e histórias? E ele contava que neste ou naquele local um ou outro personagem de tal ou qual livro poderia ter pisado, sofrido sua própria narrativa, da mesma maneira que eles também sofriam com suas histórias e personagens de suas histórias.

“Alcides está bom por hoje, amanhã terminamos este capítulo... Pegue um vinho para nós, está na segunda prateleira da esquerda para a direita no armário sobre a pia.” Alcides estava com a voz cansada e bebeu um copo com água gelada. Ele se ajeitou no sofá, passava sua mão lentamente sobre o forro felpudo do assento. Levantou-se e tateou o outro sofá em busca do livro, quando Alcides chegou com as duas taças de vinho ele estava suavemente sentindo com a palma da mão a aspereza da folha do livro velho de capa dura vermelha. Os olhos de Alcides se encheram d’água. “Não entendo porquê choram, não deveriam ter pena de mim... A pena que sentem não é nada além do quanto cada um de vocês são infelizes. Videntes, mas cegos...” O telefone interrompera o solilóquio. Alcides pegou o gancho e a voz suave de Celina anunciava que iria jantar com eles, estava saindo do escritório e passaria no supermercado para comprar tudo o que fosse necessário e que ia levar um amigo, Marcelo, que tinha acabado de ser promovido e que queria celebrar.

Ele nunca se recusava a nenhum convite surpreendente, ria, abria um sorriso insustentável. Alcides e eles brindaram a maravilha de ser cego vidente e vidente cego. Sua gargalhada foi interrompida pelo despejar do vinho seco em sua garganta, enquanto seu amigo bebia amargamente de olhos bem abertos, mas caídos. “Ligue para Samanta, ela deve estar na cidade.”

Em menos de uma hora os amigos estavam reunidos. Samanta cozinhava inacreditavelmente, preparou tudo com a dedicação de sempre. Celina sentada ao lado dele elogiava Marcelo, descrevia sua beleza física, sua sagacidade e sua determinação em crescer na vida. Logo seria o presidente da empresa. O canapé de aspargo desmanchava em sua boca, o gruyére era o charme da receita. Sorria. “Presidente! Não dou dois anos...” Marcelo perguntava e perguntava sobre seus os gostos e suas predileções, e ele respondia carinhosamente, sem enfado. Celina estava radiante, será que havia conseguido cumprir com sua missão? Ele levantou-se rapidamente, roçando a ponta de seus dedos no guardanapo e ergueu sua mão: “Posso tocar no seu rosto?” Todos surpresos se entreolharam, era mais uma feliz esquisitice. Marcelo corou, mas declinou ao pedido. Samanta encaminhou-o para o sofá em que o futuro presidente da empresa estava sentado e os dois ficaram frente a frente.

Os seus dedos corriam suavemente pelo rosto de Marcelo, a pele era macia, o cheiro de um suave perfume amadeirado suplementava o toque, o nariz pontudo compunha harmonicamente com os olhos grandes, a delicadeza dos traços agora envolvidos pelas palmas das mãos trocavam calor. Os cabelos foram levemente desarrumados com o entrelaçar dos dedos por cada mecha levemente encaracolada. Todos se retiravam, um a um. Restando somente os dois. Marcelo falava ao seu ouvido, suavemente, a voz da conquista, dizia meias-verdades, sorria muito. As mãos continuavam o passeio, agora pelo corpo, cada pelo, cada curva, explorada e inexplorada pelas mãos inábeis dos videntes cegos. Marcelo o elogiava demasiadamente, fazia juras de amor, o conquistava com sua lábia. O gosto da pele o inebriava, era sentir o outro de uma outra maneira não pensada. Marcelo sorria porque via o sorriso estampado em seus lábios.

O tempo era diferente em sua percepção. O dia e a noite não bailavam pelo céu. Era dia noite o tempo todo. Quem o prendia ao espaço eram seus convivas, a amargurarem sua irrisória felicidade. “Você falou com Marcelo hoje?”, “Sim, ele disse que iria ficar em casa, estava cansado do trabalho”. Celina celebrou com um gritinho estridente. Foram para uma casa noturna. Gostava de sentir a música tamborilando em seu corpo e tamborilava com muita força, movendo cada sensibilidade possível.

Alcides já o esperavam quando chegaram. Guiado por Celina entraram e dançaram, celebraram o corpo com movimentos informes. Cada som entravava por sua pele e se distribuía desigualmente... “Não acredito!” Os olhos arregalados de Celina poderiam ser visto até por um cego. “O Marcelo está ali e está beijando outro cara!” E ele não demoveu um músculo, continuou dançando. Celina chocou-se com sua frieza, não se importou com o fato. Continuou a dançar. A música tinha gosto de alegria inebriada pela bebida, os corpos cheiravam a cigarros mentolados. Celina continuou dançando, mas cuidava cada passo de Marcelo, ele ainda não a vira. E o pseudo-namorado do amigo beijava não somente aquele primeiro, mas outros num bailar de não-afinidades, de (des)gostos. Sentiu a mão do amigo passar em seu rosto, era o pedido para que dançassem juntos e ela assentiu. Celebrou e ela meio-celebrou. “Ele não te fez juras de amor?”, é claro que tinha feito, mas a sentença dele quietou Celina: “Todos falam, mas não têm certeza das palavras... É muito difícil alguém manejar os significados com sinceridade, nem eu mesmo manejo muitas vezes com eficácia, apesar de trabalhar com elas”. Celina insistia ao perguntar se eles haviam brigado, não brigaram e não tinham motivo para, no interpretar do amigo.

Ao fim da noite, os amigos, cansados realizados, toparam com Marcelo na saída, os olhos arregalados podem ser visto por cegos, já o disse. Gaguejando Marcelo se aproximou dele, que imediatamente tocou o seu rosto suado e grudento. As faces se encontraram, e ele cheirou profundamente seu pescoço, o perfume já havia esvaído. Beijou timidamente as mãos e abriu um sorriso. Um sorriso amargo do gosto da pele. Continuava gaguejando, entretanto, ele colocou seu dedo indicador nos lábios finos de Marcelo, e fez um “chiu” levemente chiado. “Mas... mas...”, “Não há mas, só silêncio!”, “Estou te decepcionando...”, “Nenhum ser humano me decepciona, não se preocupe!” e sorria um sorriso amarelo no ver de Marcelo. O olhar de Celina fuzilava-o enquanto pegava seu amigo pela mão e o encaminhava para o carro. Sentados no carro, Celina insistia em dizer que não acreditava, enquanto as mãos de seu amigo sentiam o aveludado do tecido de seu vestido. Entretanto, ele sorriu mais uma vez e perguntou: “Sabe qual é o gosto do segredo?”

Celebração

Campo Grande, 25 de julho de 2010

Antigamente ao guardar somente a metade das pessoas acreditava estar me protegendo de uma desilusão. Não as suportava por completo, me irritavam de tal maneira que ou eu as divida pela metade, desterritorializava sua parte desinteressante ou eu me tornaria um certo exilado. Arrancava a parte desgostosa da pessoa à bala de canhão ao fechar meus olhos para o que eu não queria entender/ver/sentir. Mas essa parte sempre retornava, e abriam os meus olhos com uma monstruosidade brutal, mostrava-se mais altiva que a outra, por sua bondade? Não, por sua persistência. As pessoas não podem ser simplesmente humanizadas a minha maneira. Hoje, ao resgatar esse passado cindido percebo que nem suporto mais as metades que escolhi realçar. Se as metades não me serviam, outra coisa deveria servir, uma persistência em viver: surgiu a fragmentação.

Portanto, de todas as pessoas eu somente guardava os fragmentos. Resolvi fragmentar a pessoa em tantas partes quanto fossem necessárias, mesmo assim não adiantou, era óbvio se metades não me serviam, imagine um fragmento. Mas pensei que o fragmento fosse melhor que a metade, guardaria somente uma ínfima parte do que gostaria de ter. Me iludi ao supor ser o fragmento estelar de algo maior, mas era o mesmo de antes, os fragmentos tem a terrível tendência de se reunir inteiro. Um fragmento demanda o outro, que demanda outro, ad nauseam, até a completude do humano. Me iludi, mas com um objetivo: perceber algo que eu achava impossível...

O passado urgente dos meus verbos simplesmente revelam uma única coisa: minha análise final. Não, não escrevo essa carta por desgosto ao seu humano, escrevo por desgosto a mim mesmo. Meu libelo não é contra a humanidade, é contra o humano que há em mim. Achava-me desnaturalizado, mas sou mais humano que poderia perceber. Quando repartia a pessoa pela metade, descobri que havia uma metade de mim não revelada. E quando resolvi fragmentar, percebi me fragmentos inúteis Não suporto o ser humano. Nem no outro muito menos em mim. O que me leva, portanto, a essa celebração final, esse rito de passagem do nada para o vazio, é o homem inteiro que há em mim e meu desgosto em percebê-lo, em ter me iludo mais do que pude ao negá-lo e não enfrentá-lo, não quero dizer entendê-lo, visto que nem entendia as metades, muito menos os fragmentos, só me resta o enfrentamento.

Não quero que essa carta se torne um ensaio, mas não consigo me desvencilhar dos meus afazeres. Mas reflito agora o porquê todo suicida precisa deixar uma carta para os seus. O suicida tem um motivo e todos precisam se culpar desse motivo. Se culpem por serem humanos, e me culpem por descobrir o humano que há em mim. O suicida precisa deixar uma herança para o outro, para que o outro cometa o ato com mais avidez, repita com mais consciência. O fato é que deixo essa carta para delimitar culpas. Na próxima vida, serei um suicida diferente, que cortará os pulsos, que se enforcará, que pulará de um prédio, sem deixar qualquer escrito, somente a indiferença e a dúvida da culpa.

Hoje tomo o pharmakon, que me mata e que me cura ao mesmo tempo num único lance macabro. Deixo de ser humano para me tornar um único, viverei morto da minha inteireza, meus significados passarão a ser somente um: o do corpo morto.


M.V.

O bocejo

Há alguns anos não pronunciava o verbo viver, preferindo existir, e como consequência também trocou o substantivo vida, por existência. Entendia que assim expressaria melhor o estado em que se encontrava. Sua mulher nem havia percebido a falta da palavra vida ou do verbo no seu vocabulário, na verdade ela não havia percebido muitas coisas.

Tudo começou em uma das numerosas discussões que o casal sempre tinha em torno dos gastos familiares. Ele comprava livros demais, edições caras de livros velhos, "que facilmente podem ser encontrados em sebos". Faltavam ainda alguns móveis em casa, outros precisavam ser trocados, e eles ainda não conheciam o sul do país. A discussão terminou com o seguinte édito: não se compraria mais livros, já havia mais de quatrocentos exemplares nas estantes, se ele quisesse, poderia baixá-los na internet. Sem argumentar, ele assentiu e ela extasiada escolheu os novos móveis, enquanto ele escolhia a inexistência. O acordo estava silenciosamente selado: ela viveria e ele simplesmente desexistia.

Desexistir era a sua única maneira de caminhar pelo mundo. No trabalho aceitava tudo o que vinha de cima, inclusive uma arbitrária baixa no salário que o fez trabalhar dobrado e diminuir o tempo em que passava com os livros. Infelizmente, ele tinha que manter o nível da família, que logo aumentaria. Em casa teve que assumir mais algumas tarefas, visto que sua esposa finalmente alcançava seu maior sonho: gerenciar a maior Agência da cidade, agora sim, ela teria tempo suficiente para ter seus filhos, já determinando um novo sonho. Desexistir era a felicidade conjugal, ela nunca esteve tão feliz com o marido que lhe proporcionava tudo o que queria e tão prontamente. Bastava uma palavra, e tudo estava feito.

Mas esta felicidade não fez com que as discussões cessassem, ela só poderia pensar com o embate das palavras, no começo, no embate divergente com o marido que nunca assentia com suas extravagâncias, depois no embate convergente consigo mesmo, visto que as observações dele se limitaram as palavras “perfeito” e “certamente”.

Ela viajou sozinha para o sul, uma oportunidade única adiantou a viagem a ponto de ele não poder ir, visto que não conseguira adiantar suas férias. Além de conhecer falsas pequenas cidades europeias dentro do Brasil, ela fecharia excelentes negócios em nome da Agência. No momento em que ela trancou a porta, foi a primeira vez que ele bocejou, ao ouvir a mala com rodinhas atravessar o largo jardim da casa em que viviam. O bocejo é uma graça que a divindade nos deu. Certamente, antes de assinar a obra humana, ela de gracejo bocejou, e inaugurou a era do tédio. Ele aproveitou a pequena liberdade e bocejou diversas vezes, muitas vezes na cara dos amigos da esposa que o visitavam com frequência, eles estranhamente gostavam de conversar com ele. Eles não poderiam se furtar da sua presença, era casado com a melhor amiga deles. Então, era uma das poucas oportunidades que poderia se expressar com autonomia e gosto perante a ignorância dos outros. Diante dos intermináveis bocejos, todos perguntavam se ele não estava dormindo bem e acabavam concluindo por ele que não dormia por falta da esposa. E ele, ironicamente, dizia um sim em meio a um longo e aberto bocejo.

Cansado de desconversar, resolveu passar o resto de suas noites livres no shopping mais próximo, a livraria se tornou biblioteca. Empreendera a leitura das novas traduções dos escritores alemães. Edições luxuosas, capas duras, tipografia impecável. Lia com cuidado extremo para não deixar as marcas de seus dedos nos livros e torcia levemente para que não fossem vendidos. Os vendedores não entendiam sua presença, um homem que usava roupas caras, que balançava a chave de um carro, não poderia comprar livros? As noites corriam lentamente perante a poesia. Uma noite, porém ficou intrigado ao ver o mais novo best-seller que ocupava quase que inteiramente a entrada da livraria. Abriu o livro, leu as primeiras páginas e bocejou... deveria ser saudades da esposa...

Como esperado, a pequena liberdade acabou. Depois de um mês, ela voltara mais impetuosa, mais exagerada, mais... Era dona do mundo, um pequeno e isolado mundo, mas era senhora de tudo. As discussões recomeçaram e ele um tanto cansado da perfeição do certamente, começou a respondê-la poeticamente, um pequeno luxo que permitiu a si mesmo por inspiração alemã. Como era de se esperar suas respostas não foram entendidas, eram superinterpretadas ao bel prazer, oras, ela era dona do mundo, por que não dos seus signficados? Pelo menos as discussões sobre os novos móveis foram desviadas para os possíveis significados de suas expressões. “Parecer não é ser”, era a frase que mais a irritava. E ele gargalhava internamente ao repeti-la incansavelmente.

O bocejo, entretanto não o abandonara. Bocejava no trabalho, nas conversas amenas com os amigos da esposa, bocejava sozinho. Bocejava da mesma maneira que a divindade. Ela ainda não havia percebidos os bocejos, ainda não os interpretara. Até o dia em que a mais importante discussão foi travada: o primeiro filho. Certamente ele não queria um filho, e isso era exatamente o que faltava para sua nova realização máxima. Nesta discussão ele preferiu começar com os certamentes perfeitos, mas quando ela anunciou a data para parar de tomar seus anticoncepcionais, ele sem perceber, de gracejo, bocejou imaginando seu futuro. Os olhos dela se arregalaram, enquanto sua mão ferozmente voou-lhe no rosto. Não ouve tempo para discutir os sentidos. Ele não reagira pela surpresa do novo nível do relacionamento deles. Era tédio ou sono? Jamais saberemos, o estalido do tapa nos deixa sem sentido.

A literatura, uma ciência francesa

Ele finalmente terminara de organizar e limpar todos os livros de sua biblioteca. Estava tomado de um êxtase fatal: o tédio. Andava de um lado para o outro. Pensava em fazer duas listas de todos os seus livros: uma com livros que ali estavam e outra com todos os que lembrava que estavam emprestados. Não havia nenhuma novidade na sua biblioteca, esperava por quinze volumes que encomendou, seria sua salvação para o próximo período de tédio que se seguiria: trinta dias em casa, dois deles passaria na casa dos pais no interior, os quais leria pelo menos quatro dos grossos volumes com muito sossego, encostado em alguma árvore do quintal onde crescera, deveria ser uma árvore frutífera com uma copa que lhe fornecesse sombra o suficiente para a tarde toda. Exatamente como fazia com os livros que seu pai possuía na biblioteca imunda e desorganizada, que com certeza ainda estava lá do mesmo modo que na sua infância, só que mais inchada de muitos volumes desnecessários. Leu tantas bobeiras paternas na sua infância e adolescência que nem sequer se lembrava dos seus conteúdos, lembrava somente dos títulos e das capas que era exatamente o que mais o agradava, pomposos e bem editados. Ele não lia os livros de seu pai, mas a promessa que eles eram. Foi realmente entender o que era ler quando os títulos se uniram com os textos ali contidos, deixaram de ser pomposos para realmente o atingir direto na consciência. A biblioteca de seu pai fazia menos sentido à medida que lia mais e mais livros da grande literatura. Os livros da casa do interior mataram seu pai. Perseguiu tanto uma ideia única que o levou para um país esfomeado que quando voltou morreu de uma doença qualquer que contraiu na África, a qual os seus livros não o haviam imunizado contra. Sua mãe queria esquecer-se da biblioteca, porém passava o tempo todo na cozinha criticando os livros por acumularem poeira, mas não conseguia se desfazer da única lembrança do marido ausênte. Estavam lá pelo que representavam, não pelo que continham, pensava ele.

Só organizara sua própria biblioteca porque terminou de escrever mais um livro: A literatura, uma ciência francesa. Em sua última palestra havia dito que a literatura era uma ciência que só poderia ter sido produzida na França, não o país, mas o valor. Achara a frase tão pitoresca que resolveu elaborar a hipótese como se defendesse seu último suspiro. Não poderia morrer sem deixar aquela frase, que agora intitulava o escrito que acabara de revisar, explicada. Entretanto, revisar era um gesto de sofreguidão. Sabia que depois de terminado, entraria no mais profundo tédio que poderia sentir. Não havia mais nada a ser feito. Demoraria meses para ver o título nas prateleiras, os quais eram seguidos pelas críticas, elogios e teses. Gostava do efeito de suas obras? Nem um pouco... gostava de estar ocupado com suas consequências. Seus amigos, seus inimigos, seus admiradores e seus alunos o ocupavam seriamente com cada parágrafo como se desvendassem mais uma pedra de Roseta. Ele se divertia. Mas o hiato que havia entre o fim de um livro e a diversão era mortal. Não sabia esperar, ansioso por ver o efeito de suas reflexões, sofria por antecipação. Esse hiato era impregnado pelo que tinha acabado de fazer e pelas possibilidades do que iria fazer. Um não momento. Sentia que seria consumido pela sua própria angústia. Por isso se amontoava com tarefas desnecessárias.

Havia três dias que trabalhava em sua biblioteca, começara a organizá-la no exato momento em que mandou seu livro para o editor. Seu livro tinha sido aprovado pelo Conselho Editorial antes mesmo de sua finalização. A capa já estava pronta, era uma fusão do rosto de Flaubert com o de Baudelaire, ao fundo reinava Rimbaud. Ele não gostara da capa, mas estava ocupado demais tentando comprovar sua hipótese. Sabia que seus críticos, seus colegas e seus amigos jamais o entenderiam, era sua preocupação maior.

A literatura é patrimônio cultural humano, não há dúvida. E ao propor a desterritorialização da França, não quero acabar com uma nacionalidade ou mesmo elevar uma nacionalidade como exemplar para a criação literária, quero analisar um valor. O francês é um significado que sustentaria todo o fazer literário, toda a escrita, toda a leitura. O gesto político que proponho não diminui a literatura não francesa, recria todos os valores, pois a nacionalidade não faria mais sentido, a não ser pela ideia que denominei francês, que (in)felizmente é homônimo ao adjetivo pátrio. A literatura não começa na frança, todavia somente tem sentido a partir dela. Minha argumentação começou com os próprios franceses defendendo o valor de sua língua, entretanto percebemos que não defendiam a língua, mas a instituição que o francês representa. Portanto, reformulo a frase que iniciou o parágrafo: a literatura é patrimônio cultural humano francês.
Queria esquecer que não seria entendido, por isso organizava os livros havia três dias. Paradoxalmente, resolveu separar os livros por assunto e os literários por nacionalidade. Colocou os franceses todos juntos. Ocupavam uma única estante. Eram pomposos, em edições bilíngues, ou mesmo em edições francesas da Galimard, comprados em tantas viagens pela França. Sabia que essa estante tinha os parafusos já falseando em seus buracos. Sabia que um movimento brusco poderia fazê-la ceder e que o barulho no apartamento de baixo poderia causar algumas dores de cabeça, visto que eles sempre reclamavam de sua inquietação diante da biblioteca. O interfone mesmo já havia tocado duas ou três vezes nesses três dias. Não atendeu, é claro, tinha uma tarefa a cumprir. Será que o peso daquela estante e todos os seus livros poderia matá-lo? Hesitou. Testou a estante e seu falseamento. Seu sorriso no canto da boca era irônico. Poderia realmente matá-lo ou o levaria para o hospital? A dúvida era perversa. Gargalhou. A estante poderia cair mesmo se não a puxasse. Poderia cair a qualquer momento. Poderia estar no meio de uma palestra sobre a frança, assim mesmo sem letra maiúscula, por não mais representar um país, e ouvir o estrondo, o eco de sua estante caindo e acordando os vizinhos, não só os do andar de baixo, mas toda a vizinhança, da frente, dos fundos, do outro lado do hemisfério. Sorriu mais uma vez. Prostrou-se exatamente no meio daquela estante cambaleante e puxou-a com uma leveza que a fez ceder lentamente por cima dele enquanto os livros se desarticulavam sob o peso desnecessário da gravidade.

O caminhante


O homem é composto de repressões e faltas. Somente. E a ele somente cabe um único e grande título, o caminhante. Ele abre os olhos e a presença se faz. Ele dá o primeiro passo, e o passado lhe sobrevêm, a lhe mostrar tudo o que não foi, tudo o que desejou, tudo o que sentiu e se envergonha, como a qualquer um. Ao primeiro passo, vê o futuro e chora, como todos os dias, numa repetição interminável de nadas.

Narrar um dia é narrar todos, posso contá-lo no tempo presente, no passado ou no futuro que não haveria diferença ou mesmo despropósito. Não haveria erro gramatical, muito menos falta de coerência. Seu trabalho recalcitrante, o mantinha em desvida. Fazê-lo era apagar-se, não fazê-lo era sobrevivê-lo. As poucas horas que passava por lá, corriam lentamente, cada minuto preenchido por um pequeno documento, uma repetida grampeação, um desvirtual clipamento. Chegar e sair, sem ser percebido, era só uma questão de realizá-lo de maneira usual, e era o que fazia, e o fazia muito bem. Todos os documentos em seu devido lugar, grampeados e nos clipes. Seu chefe só precisa assinar e devolver. A única coisa que o desassossegava era de(re)volução que o obrigava a sair de sua sala e passar pela secretária e pedir a chave do arquivo. Muito simpática, muito servil, muito interessada. Feliz, por assim dizer. Porém, sua felicidade não cabia no caminhar, seu bom dia irritante era decretar a morte da vida inteira, e mostrar tudo o que lhe falta. E essa falta é a ignorância para considerar que a felicidade possa existir e ser expressa num simples bom dia. A busca da felicidade era o que mantinham as pessoas vivas, e a existência da felicidade era que o mantinha amargo. Além disso, o arquivo era a lembrança desesperada de que existe um passado e que ele está ali todo documentado, encaixotado e finamente datado. Todos os seus doze anos quatro meses e 22 dias de serviço estavam ali bem exibidos e limpos, por um fantasma qualquer da limpeza. Ele se exigia para não exigirem dele.

Seu almoço solitário se restringia ao que lhe ordenavam comer, regrado pela nutricionista corada e de sorriso fácil, não precisa emagrecer... mas escolher o que comer não lhe tinha serventia, comia porque sabia que tinha que comer. A inanição não poderia lhe matar, outra morte lhe pertence, lhe merece. Com seus dedos ágeis cortava cada porção exata de tudo que lhe alimentava, mastigava carinhosamente cada uma das proteínas, dos carboidratos, sentia a leveza de cada vitamina... uma pequena sensação de preenchimento, que logo se esvazia pelo suco gástrico, pela absorção do organismo, para eliminar tudo aquilo que já não presta, mas que lhe dava uma única oportunidade, mesmo que metafórica, do prazer de expulsar o inválido. O dinheiro sempre estava minuciosamente contado na carteira, não que lhe faltasse, pelo contrário, lhe sobrava, não sabia ao certo quanto tinha em sua conta bancária, só sabia que recebia mais do que precisava, deveria já se amontoar aos milhares, o banco ligava todas as semanas propondo-lhe um investimento, uma conta exclusiva. Exclusividade que não lhe acariciava o ego, visto que ser importante para outrem, mesmo que bancariamente, era o vil e desnecessário modo de existir.

O mesmo ônibus, o mesmo horário, o gesto de puxar a cordinha, os mesmo olhares, os mesmos transeuntes, o mesmo sol, a mesma chuva, o mesmo porteiro, o mesmo bom dia, o mesmo olhar, o mesmo resmungo, o mesmo desprezar. Suas chaves já giravam sozinhas na porta, aprenderam por aprender e abriam-lhe a repressão. Uma, duas ou três correspondências por baixo da porta. Algumas vezes um bilhete, era a vizinha sempre a lhe convidar para algum jantar. Uma vez desculpou-se dizendo que não comia carboidratos depois das 18h. Comia outra coisa. Sua boca se enchia de outro sentido, um sentido advindo de um outro quarto que não era o de dormir. Dos cômodos de sua casa, o que mais lhe pré-ocupava, o que mais lhe oprimia era o outro quarto: estantes, poltrona, milhares de livros e uma luminária. Depois de seu lanche noturno, somente lhe cabia uma única tarefa: ler. Entrar em um mundo que só lhe pertencia quando um livro era aberto e que se desfazia a cada fechar. Do oriente, do ocidente, do meridiano ou do setentrional, em português, em inglês, em espanhol, em alemão, em italiano, não lhe importava, tudo era deglutido com o mesmo gesto, o passar das páginas e a sensualização dos olhos nas letras. Não eram somente mundos narrativos, mas também mundos filosóficos, sociológicos, tanatológicos, legais e medicinais. Não era engolir personagens, era tirar deles todo o proveito. Os únicos que poderiam ser felizes, pois tinham morte certa, era só fechar o livro. E só eram felizes porque inteiros, mesmo que pela metade, preenchiam a filosofia, a sociologia, a tanatologia, o direito e a medicina. Um era suplemento do outro, estavam todos ali ligados por uma tradição não divisível pela metade do globo.

Meia-noite. Respirava duas vezes, profundamente a sorver, provavelmente, seu último oxigênio, e dormia. No outro dia tinha que caminhar novamente. Ao menos, não precisaria ir ao arquivo.

Sonoramente inerte

De sonhos estranhos para a realidade brutal, fui arrancado dos braços da morte para minha cama, como se acordar fosse uma salvação. O relógio piscava três da manhã ao me dizer que de agora em diante não há mais sono. Descansa um, enquanto o outro perece. Levantei e peguei o cachecol. Chaves e um papel. Abri a porta cuidadosamente para não acordar demônios piores que geralmente encontro pelas ruas. O portão sempre rangia, e rangeu tão lenta e furiosamente naquele silêncio que dois olhos de gato se abriram na noite. Era meu acompanhante, não tinha outra opção. Ganhei a esquina de minha casa, não havia mais ninguém, somente os roncos, os gemidos e os poucos prazeres da noite. Desci a rua calmamente, era toda minha e das estrelas que de uma forma fantasmática davam vida as poucas nuvens que ousavam cruzar o céu tão vagarosamente que parecia que eu não estava a andar. Me acompanharam por quadras até a única luz acesa. Um velório pela madrugada, tão comum quanto a vida que só tem sentido pela morte. Passei pelo outro lado da rua, o caixão estava à vista... mas não havia ninguém a chorar pelo defunto. Olhei mais uma vez... nem mesmos os funcionários da funerária estavam lá. Os olhos brilharam. Eu entrei. Um caixão, nenhuma coroa de flores, um violino sobre o morto, ninguém. Era somente o morto, a morte e eu. Serenamente vidrado meus olhos se apossaram da inércia mortificada. Pele lisa, cabelos bem penteados, rosto quadrado, nariz perfeitamente pontudo, lábios finos. Tenho certeza que seus olhos eram profundamente verdes. Uma das mãos delicadas seguravam suavemente o violino e a outra debilmente o arco. Os dedos finos demonstravam habilidade, as unhas perfeitamente aparadas. Um corpo esguio, poderia vê-lo tocando, mas meu acompanhante via mais. Seus olhos, agora em fenda devido à luz, mesmo que fraca da funerária, incomodados, pois estão acostumados com a noite, me convidavam para um mundo passado. Acreditava-o músico de renome, mas não. Tocava violino em funerais como aquele que estava solitariamente presente. Engano meu. Tocava em funerais mortificantes, cheios de intenções e mofa. Todos de preto, muitos ternos, muitas joias, muito brilho fúnebre, muita gente mais interessada na vida que sobrou do que no morto. Heranças, lembranças, novos olhares, novos contatos. “Este é o pai do nosso querido amigo, dono das indústrias que lhe falei...”, “Minhas condolências, este é meu cartão!” Sua música jamais desafinou, nunca faltou ao emprego, viu todos os vereadores, grandes chefões do tráfico, atores globais, escritores de best-sellers serem enterrados ali sob suas notas mais tristes entre risos contidos pela forma aguda de suas cordas. Viu esposas chorarem enquanto procuravam os telefones dos advogados... mas também viu vexames, desconhecidos chorarem sinceramente pelo morto, viu coisas estranhas, viu até mesmo um enterro faraônico onde seu violino era mais um entre trinta. Os olhos fendados gargalharam, olhou ao redor e só viu a mim e não escutou nenhum violino, nem música triste ou acordes fúnebres. Só havia minha respiração oscilante e o chiado da lâmpada quase por se esgotar. Toquei sua mão, sua morte deve ter sido muito tranquila feita de nadas sobre o vazio, os olhos a me reprovar... Tocaria violino se eu soubesse, mas disse palavras desconexas rapidamente rabiscadas no papel, nem para me condoer pelo distante eu era capaz. Tudo era fingimento, falsidade. Morre-se todos os dias, todas as horas, todos os segundos, entrega-se a terra nada mais que o velho gasto corpo perecível para que seja reaproveitado para reanimar a grama que irá esverdear sua lápide. Os olhos se fecharam, eu subi a rua solitário, nem as estrelas a me acompanhar, já amanhecia e as primeiras lutas já se desdobravam, o carro da funerária subiu lentamente passando por mim. Seguia em direção ao cemitério municipal. Não era indigente, eu sabia seu nome, Frederico Andrade (1985-2010), enterrado em vida por animar a morte. Invisível como qualquer outro fantasma. Silencioso porque não tocou nenhum coração com suas vibrações musicais. Sonoramente inerte. Mais um belo instrumento musical desperdiçado.